• Flora Quinhones

HORA 13 - O Empreendedorismo Social e Serviços Financeiros Solidários como uma saída progressista

Atualizado: 16 de jul. de 2021

Direto da Espanha, Asier Ansorena irá participar do programa Hora13, de sexta-feira, dia 23. Ele que já viajou o mundo todo tratando de Empreendedorismo Social e Serviços Financeiros Solidários, agora vem falar sobre o assunto aqui conosco e discutir a perspectiva progressista desse tema


Quem é Asier Asorena: Espanhol, formado em Economia e Ciências Políticas pela Universidade de Michigan. Trabalhou na AIESEC em projetos de capacitação de jovens e empreendedorismo na Jordânia e em vários países da América Latina. Em 2009, chegou ao Brasil para liderar a equipe de microcrédito do Instituto Banco Palmas, primeiro banco comunitário do Brasil.


Em 2013, Asier co-fundou o Palmaslab, um espaço de pesquisa e inovação que capacita a periferia urbana de Fortaleza, por meio do desenvolvimento de TI para jovens e comunidades e iniciativas de pesquisa. De 2016 a 2018, ele foi Mel-King Fellow em democracia econômica transnacional no MIT. Desde final de 2019 Asier faz parte de Ashoka e esta construindo uma estrategia global de mobilização e engajamento de comunidades de diaspora para apoiar e co-liderar as principais iniciativas da Ashoka.




Resumão Hora 13 3:40 – Blattes: O que é a Ashoka e o que é empreendedorismo social


3:54 – Asier: É uma rede global de empreendedores sociais. Uma rede porquê de certa forma a Ashoka desenvolveu o conceito de Empreendedorismo Social de toda uma estrutura que vai procurar essas pessoas, conecta-las e depois impulsar o trabalho que elas estão fazendo. Ao mesmo tempo, ela desenvolve ações de educação, desenvolvimento econômico, direitos humanos, saúde, participação cívica, onde os empreendedores sociais que a Ashoka seleciona vão trabalhar. Minha função na organização é pensar como as comunidades de diásporas, que são as comunidades de migração do mundo e seus descendentes que ainda estão conectados com sua região ou pais de origem, podem se tornar atores fundamentais nas estratégias da Ashoka nos campos de tecnologia, desenvolvimento econômico, etc.


9:07 – Blattes: Explicar pra nós o que é o empreendedorismo social e de que maneira ele se assemelha com o empreendedorismo tradicional e de que forma ele se diferencia?


9:45 – Asier: São pessoas que tem uma atitude empreendedora, no sentido de querer mobilizar a suas ideias através da mobilização de mais pessoas, de times, de estruturas, etc, com o fim de resolver questões sociais críticas. Pessoas que sofrem com dificuldades sociais como desigualdade econômica ou racismo, são as pessoas mais preparadas pra pensar a solução, articular ideias e mobilizar pessoas ao redor dessas ideias. E quando ela tem muito impacto, ela consegue modificar politicas públicas e fazer com que o país mude sua política em questões de melhorias pra população. A diferença está em construir uma ideia em conjunto e não exaltar o trabalho de uma única pessoa como é no empreendedorismo tradicional.

13:13 – Blattes: Nesse momento de crise, muitas vezes o governo provoca essa falsa dicotomia entre a defesa da economia e a defesa da vida. Mas tem muito mais coisa em jogo, de como a sociedade se organiza, principalmente as camadas mais vulneráveis. Mas afinal qual a importância de um banco social em um momento como este? E no que ele se diferencia na sua estrutura?


14:30 – Asier: Asier começou a fala fazendo uma análise sobre pesquisas feitas em outras crises sanitárias e essa falsa dicotomia entre a defesa da economia e a defesa da vida, chegando à conclusão que não se pode separar as duas e sim encara-las de uma forma conjunta. Ele explica: A principal função de um banco comunitário é a capacidade de ele conhecer as pessoas de uma determinada localidade ou periferia que ele atua. Isso porque existem diversos tipos de pessoas dentro de uma comunidade e diversas periferia no Brasil, cada uma tem suas peculiaridades. E os bancos comunitários permitem que essas comunidades possam gerenciar cada vez mais ativos financeiros para serem reinvestidos no próprio local. Asier também conta a história do banco palmas e como o instituto reorganizou as finanças de comunidades do nordeste.


22:40 – Blattes: Essas políticas, de que forma a moeda social pode ser usada como ferramenta pública, utilizando essa ferramenta para impulsionar as pequenas economias locais, fazendo com que o dinheiro não saia daquele local ? Especialmente para os pequenos negócios, facilitando a produção primaria, a agricultura familiar, os pequenos empreendimentos? Ainda mais em um cenário de desmonte de políticas de economia solidária de Paulo Guedes.


23:57 – Asier: As ideias de Paulo Guedes nem são ensinadas mais nas universidades de economia e isso causa uma grande descredibilizando o país internacional. Há muitos exemplos de moeda social no Brasil onde não só se cria um banco comunitário, mas se cria uma lei municipal de apoio a economia solidaria. A política municipal é a mais potente e relevante para trazer melhorias para a população e experimentar propostas diferentes. E aí entra a moeda. Ela pode ter conceitos diferentes, formas diferentes de utilizar e depende dos objetivos, dos princípios do projeto, ou seja, qual a comunidade? O que ela quer atingir? Porque ela cria essa moeda? Assim, a moeda não é só uma ferramenta de desenvolvimento social, é uma ferramenta de mobilização, de pedagogia e principalmente, mais uma ferramenta para contribuir para a comunidade. Asier fala sobre o exemplo de Marica e a moda local. E como funciona os investimentos do banco Palmas.


31:05 – Blattes: Como um banco se organize, para que uma moeda social seja implementada? Isso tem haver com o banco central? Qual é o caminho para a formação de um banco social? A moeda social é diferente do real? Tem outra forma de utilizar?


31:43 – Asier: O valor é o mesmo. 1 pra 1. Mas repito, essa é uma ferramenta pedagógica de desenvolvimento. Não busca substituir o real. Esse não é o objetivo. A moeda social nasceu para gerar justiça social, desenvolvimento econômico, utilizar princípios de solidariedade na economia. Esse é o papal da moeda social. Então ela vale o mesmo. Para criar uma moeda social na sua região, você precisa entra em contato com a plataforma E-dinheiro que é a plataforma da rede brasileira dos bancos comunitários no Brasil. Mas é preciso ter pessoas e comércios locais que queiram aderir a essa logica diferente de fazer parte do sistema financeiro. Hoje esses bancos comunitários já são atores validados pelo Banco Central para fazer todas as operações.


40:34 – Blattes: O pequeno empresariado. Esses indivíduos com um ou dois funcionários: eles também podem se beneficiar da moeda social?

45:51 – Asier: É para todo mundo! Não tem restrição. Obviamente a economia solidaria é para as pessoas. Não é só para um determinado tipo de classe social ou de renda. É pra todo mundo! Ela é baseada na dignidade do ser humano: empresário, funcionário, educador, enfim, tanto faz. Mas porque é importante para o empresário? Porque o sistema financeiro convencional não gera valor. Se você tem uma empresa com até 100 funcionários e você faz todas as transações por um banco comunitário como o E-dinheiro. Não é só mais barato, mas todo esse dinheiro que você paga em salários, fornecedores e impostos, vai tudo para o território onde a tua empresa funciona. Então você está aumentando a velocidade de circulação da moeda e do dinheiro das pessoas. Isso gera dinheiro, gera crescimento e gera oportunidades, gera emprego para população. Então as empresas são as mais beneficiadas por essas iniciativas.


45:49 – Blattes: Vai chegar alguém e vai dizer: mas vocês querem fazer um micro país, não querem que o dinheiro saia. Existe essa dicotomia de dizer: vocês querem vender só no quadradinho de vocês e não querem se comunicar com o resto do país?


45:14 – Asier: Não tem nada haver com criar fronteiras. Não tem nada haver com isso. É mais uma reorganização das poupanças. A gente vive sobre um desequilíbrio econômico global muito grande por isso. Porque as pessoas mais privilegiadas têm acumulado recursos que hoje não estão ativos. Não fazem diferença no mundo para sair da crise, para reinventar a economia, para resolver a crise climática. Esse dinheiro está preso. O que se busca nesse processo de moeda social, é que o dinheiro circule de forma mais rápida. Não vai ter menos pra outra região. Vai circular e gerar mais dinheiro e consequentemente gerar mais renda para gastar em outra região.


47:43 – Blattes: Como as pessoas se informam sobre o assunto. Isso é matéria de faculdade? Quem faz relações econômicas hoje em dia sabe o que é um banco social? A impressão que dá, é que o sujeito sai de uma faculdade de economia, de contabilidade, que sabe tudo sobre sistema financeiro e regra tributaria e não vê a realidade do empreendedorismo social e a importância que isso tem pra sociedade.


50:17 – Asier: O Brasil é referência no campo de inovação social, de empreendedorismo social e de economia solidaria. Sobre as faculdades, as vezes elas ficam olhando para fora, mas tem histórias, inovações, práticas, organizações incríveis no Brasil. Dentro da Ashoka, o Brasil só perde para a Índia que é 7 vezes mais populosa. Mas uma das principais frustrações é que a academia brasileira olha para a Ashoka, apenas como objeto, em uma lógica totalmente alienada ou ignorável. Na faculdade de negócios, é impossível um profissional treinar e capacitar jovens pra criar as empresas que o Brasil precisa, se eles não sabem esses princípios básicos, de dignidade e solidariedade com o outro. Se entende economia, apenas, com aquela ideia que o ser humano busca melhorar o crescimento, e você ignora a complexionalidade do ser humano e dos grupos.


Considerações Asier: Eu acho que é importante não esquecer que devemos construir economias que precisam de todo mundo. A gente precisa mudar o ship, porque quando nós falamos de globalização, de inteligência artificial, dos efeitos da pandemia, parece que a gente precisa de mais de um grupo que outro. Isso é um erro muito grande! Nós precisamo de toda a lógica pra investir nesse tipo de pequenos negócios numa cidade ou outro tipo de indústria. O importante é saber que esse tipo de economia, permitem que o projeto seja pra todos e que a gente realmente precisa de todo mundo. Esse é o princípio fundamental.